Peterson, 14 anos, filho de gays, espancado pelos colegas: o que sua morte nos ensina
Foi na porta da escola. Um grupo de colegas cercou Peterson. Como começou? Viram cinco garotos batendo em Peterson. Tocou o sinal e ele ainda conseguiu assistir um pouco de aula. De repente passou mal. Foi levado para o hospital. Passou cinco dias em coma. E morreu ontem.
Por quê apanhou? Peterson estudava nessa escola desde os seis anos. Era perseguido há anos. Porque era filho de gays. Os pais não sabiam. Peterson escondia. Imagine o que se passava na cabeça do garoto.
É tragédia anunciada, dolorida, cotidiana. Nem merece destaque na imprensa, está lá embaixo, escondidinho. A lei muda, mas não muda a cabeça das pessoas. Gay é viado, coisa do mal. E morre mais um. E filho de bicha bichinha é. Que pague pelo pecado de seus pais. E morre um menino inocente.
Peterson não morreu só porque era filho de um casal homossexual. Morreu principalmente porque estudava em escola pública na periferia paulistana, em Ferraz de Vasconcelos. Fosse filho de gays e aluno de escola de elite, podia até ser zoado por algum colega cretino, mas estava vivo. Porque nossas melhores escolas ensinam que todas as pessoas merecem respeito? Não. Porque as escolas pagas têm segurança paga e não permitem esse nível de violência.
Ensino não é antídoto contra estupidez. Educação não é o que nós dizemos, é como agimos. O poder de educar é o poder do exemplo. Podes ensinar quanto quiser seu filho a respeitar as mulheres. Mas se na animação do panelaço você xinga Dilma de vaca, não reclame quando seu herdeiro tratar as mulheres como cadelas.
Liberdade inclui por definição liberdade de ofender. Não sou radicalzinho de rede social, que a cada escorregão politicamente incorreto grita "crime de ódio!". Basta apontar o óbvio: o que ensinamos a nossas crianças, como pais, educadores, como sociedade, tem consequências. Ter um filho me fez querer ser um homem melhor. Duvido que consegui, mas o desafio está colocado, todo dia. O Brasil precisa assumir seus filhos.
Se eu tivesse resumir em uma única palavra o que falta no Brasil, eu diria: exemplos. De coragem, de imaginação, de conduta. Exemplos de liberdade. E principalmente exemplos do que acontece se você agir errado. Seja quem for.
Não consigo não ter dó dos meninos assassinos. Alguém ensinou eles que homossexual tem mais é que se ferrar. Agora ferraram suas vidas. Grande chance de irem em cana, para a Fundação Casa, ex-Febem. Vão sofrer o diabo por uns anos. Grande chance de aprender a ser bandido. Se forem por aí, viverão pouco e mal.
Também dá dó dos pais dos assassinos. Mas tudo compreender é tudo perdoar. Dá mais dó dos pais de Peterson. E do moleque que nunca vai ter chance de crescer.
Os pais de Peterson não culpam diretamente os meninos que mataram seu filho.Dizem que vão processar o Estado, que é p responsável pela segurança nas escolas. Há que aplaudir o espírito do casal. Preparem-se para muita dor e frustração.
O poder público brasileiro nunca é responsabilizado judicialmente por coisa nenhuma. Nem seus gestores. Este processo vai dar em nada ou quase nada. Como o mensalão. Como o escândalo dos trens em São Paulo. Como todos os outros escândalos que você se lembra. Paulo Maluf, mais mau exemplo impossível, está aí se jactando de não ser citado na investigação da Lava-Jato, cantando suas décadas de vida pública limpa...
Vamos vivendo e morrendo assim, educando nossas crianças na lei do cão. A vida boa dos poderosos diz: a corrupção vale a pena. A impunidade de criminosos grita: o crime compensa. A morte de Peterson ensina: se o seu colega tem pais gays, pode espancar ele, garoto...
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